Por: Matheus Alves Mota
Talvez vocês não conheçam esse nome, mas saiba que é um dos maiores nomes do futebol brasileiro. Garrincha está na História por ter uma habilidade descomunal, ainda que tivesse pernas tortas. Pelé sabia fazer de tudo, e só fazia o que sabia quando precisava, não dava mostras desnecessárias. Gérson dava passes milimétricos, Sócrates podia fazer qualquer passe ou lançamento de primeira, e se fossemos falar de cada grande jogador do futebol brasileiro, escreveríamos um livro. Mas Kaiser ficou famoso justamente por não jogar.

Kaiser à esquerda, Gaúcho no centro e Renato Gaúcho à direita
Não que ele fosse ruim, o que não podemos afirmar, já que poucos o viram jogar, isso em quase 20 anos de carreira. Se não foi pioneiro, Carlos foi o maior mestre do “migué” no futebol brasileiro.
Carlos Henrique Raposo é carioca, e começou a carreira nas categorias de base do Botafogo, em 1973. Não era um primor técnico, podemos dizer que se fosse pra investir na carreira apenas pelo seu talento, o mais recomendável era procurar outra profissão. Mas Carlos era bom de lábia. O apelido “Kaiser” dava certa imponência, além disso tinha um bom porte físico, realmente parecia um atleta, e como sempre fazia os treinos físicos sem reclamar, era bem visto por técnicos e dirigentes. Isso até que a bola rolava. Quando o treino com bola começava, ele logo fingia alguma contusão, e ficava algum tempo parado, e quando ia voltar, seu contrato acabava e ele arrumava outro clube.
Hoje, esse truque seria facilmente descoberto, mas num momento em que a medicina esportiva não era tão avançada, e que a comunicação não era tão rápida, as coisas ficavam bem mais fáceis. E para completar, Kaiser usava de simpatia para formar um círculo de amizades influentes, entre jogadores e jornalistas, principalmente Renato Gaúcho (amizade essa que facilitava o acesso a festas).
Com essas relações, Carlos sempre arrumava emprego, chegando a jogar fora do Brasil. Mas o maior “triunfo” de Carlos seria outro. Quando defendia o Bangu, Carlos passava por uma nova “contusão”, mas mesmo assim, estava relacionado para uma partida importante. Antes do jogo, o técnico da equipe, Moisés, lhe disse que só ficaria no banco, que não entraria. Mas no jogo, o Bangu não estava bem, e o próprio presidente do clube, Castor de Andrade, saiu da tribuna e foi até o banco, ordenando que Moisés colocasse Kaiser em campo, já que ele havia sido contratado pra fazer gol. Sem escolha, Carlos foi para o aquecimento, pensando em como se safaria dessa.
Em meio a isso, um torcedor xingou o Castor de Andrade. Kaiser viu aí uma oportunidade, e não pensou duas, pulou o alambrado e foi brigar com o torcedor. Carlos foi agredido por vários torcedores, e quando voltou para o campo, o juiz o expulsou, antes mesmo do “atleta” entrar em campo. Ele escapou do jogo, mas agora, teria de escapar de Castor.
Naturalmente, o dirigente estava furioso, e ao contrário do geralmente acontecia, foi pedir uma explicação para o jogador; era a 2ª oportunidade do dia. Kaiser não a desperdiçou, disparando: “Antes que o senhor diga qualquer coisa, Deus me deu um pai e levou. E Ele me deu outro. Então jamais vou admitir que digam que meu pai é ladrão e os torcedores estavam atrás de mim falando isso”.
Castor, emocionado, renovou o contrato de Kaiser por 6 meses, além de convidá-lo para viajar. O feito se tornou ainda mais notável, pois Castor era um notório contraventor, a ponto de todo mundo saber que era um contraventor e ninguém conseguir provar, tendo como maior negócio o Jogo do Bicho. Não é qualquer um que aplicava uma “manta” no Dr. Castor de Andrade.
Reza a lenda que em sua apresentação no Ajaccio-FRA, que na época estava na 2ª Divisão, Kaiser foi recepcionado por milhares de torcedores no estádio, afinal, era um jogador brasileiro com fama de artilheiro. Havia um monte de bolas no gramado, e ele logo percebeu que não seria apenas uma apresentação, mas um treino normal.
Com isso, para não ser desmascarado, começou a chutar as bolas para a galera, a beijar o escudo, e com essa cena, ganhou a simpatia dos torcedores, que não ficaram nervosos ao saber que o atleta se “contundiu” e ficaria um bom tempo parado. E mesmo assim o presidente do clube francês afirmou que poderia vender o time inteiro, menos Carlos, ou pelo menos é o que próprio Carlos disse em entrevista. O mesmo afirma que lá tentou jogar de maneira séria, e ainda que não tivesse jogado mais do que 20 minutos em cerca de 15 ou 20 jogos, foi o clube que mais defendeu.
Hoje, Carlos Henrique possui uma mistura de orgulho e arrependimento. Orgulho por ter feito de bobo alguns dirigentes do futebol brasileiro que se notabilizaram por iludir vários atletas, e arrependimento por não ter levado a sério as oportunidades (pelo menos a sérias) que teve, podendo ser um jogador de fato. De todo jeito, seu nome está escrito no folclore do futebol brasileiro.